Da CLT para as redes sociais: como Leo Bagarolo transformou vídeos de cachorro em negócio

Leo Bagarolo, 37, passou sete anos em uma varejista de casa e decoração, onde chegou como trainee e saiu como gerente da área de marketplace. No início da pandemia, começou a gravar vídeos curtos com as cachorras Mada e Bica, hoje perfis com peso comercial próprio.

A decisão de deixar a empresa veio quando o faturamento de um único mês de publicidade digital igualou o salário que recebia por ano. Hoje, cerca de 80% da receita do negócio vem de contratos com marcas, e a operação inclui ainda licenciamento de produtos e uma peça de teatro em cartaz.

Nascido em Artur Nogueira, cidade do interior de São Paulo próxima a Campinas, Bagarolo se formou em Comunicação Social com habilitação em Cinema, mas não conseguiu emprego na área logo após a faculdade.

Passou por telemarketing e por um banco antes de ser aprovado no programa de trainee da varejista, entre 2013 e 2014. Na rede varejista, foi gerente de loja, abriu uma unidade como gerente comercial e depois ajudou a estruturar o marketplace da companhia, onde montou equipe e processos. “Achei que esse seria meu caminho definitivo: gerente, diretor e futuro CEO”, afirma.

A mudança começou no home office imposto pela pandemia, entre o fim de 2019 e o início de 2020. Bagarolo tinha duas cachorras, Mada e Bica, e uma gata, Lola, e passou a narrar o dia a dia delas em vídeos de humor.

O formato ganhou tração com o crescimento do TikTok no Brasil. Por cerca de um ano e meio, ele conciliou a rotina no emprego com a produção de conteúdo, até que o projeto exigiu uma escolha.

“Um contrato publicitário com essa marca equivale a três meses do meu salário na CLT”, diz Bagarolo sobre os primeiros cálculos que fez para avaliar a transição. A decisão de sair veio quando a comparação chegou a outro patamar: o faturamento de um mês passou a igualar sua remuneração anual como funcionário. Ele levou entre quatro e cinco meses para se decidir, criou uma reserva de emergência e buscou orientação financeira antes de formalizar o negócio.

O primeiro sinal de que havia negócio ali veio antes disso, quando uma marca perguntou quanto ele cobrava para produzir um conteúdo. Até então, Bagarolo recebia produtos em casa e divulgava em troca do envio, sem remuneração direta. “Quando vi que existia remuneração real pelo trabalho, entendi a viabilidade do negócio”, afirma.

Hoje a operação reúne três frentes: os perfis de Mada e Bica, e os perfis pessoais de Bagarolo e da esposa, Evelin Camargo. Cerca de 80% do faturamento vem de publicidade, com uma carteira de sete a oito marcas com contratos anuais e cerca de 30 a 35 marcas atendidas ao longo do ano somando as três frentes.

Os outros 20% se dividem entre monetização de plataformas como YouTube, Facebook e TikTok e o licenciamento de produtos com a marca Mada e Bica — hoje uma linha que inclui pelúcias, comedouros interativos, cosméticos pet e tapetes higiênicos.

Sobre o formato dos contratos, Bagarolo explica que a maioria das marcas busca pacotes que combinam vídeos em Reels e TikTok com sequências de Stories. A empresa dá preferência a contratos anuais e recorrentes, o que permite diluir custos para a marca, criar uma conexão mais autêntica com o produto e manter um planejamento financeiro mais previsível.

O faturamento também tem sazonalidade: datas como Dia dos Namorados, Black Friday e Natal concentram maior demanda publicitária, assim como eventos pontuais de grande repercussão, caso da Copa do Mundo 2026.

O negócio conta com uma agência responsável pela área comercial, pelo atendimento a marcas e pelo suporte em gravações externas, além de assessoria jurídica e financeira própria da agência. Há ainda assessoria de imprensa para o trabalho artístico do casal e uma profissional dedicada à gestão das redes sociais.

Bagarolo aponta a “cultura de espírito de dono” trazida da vida corporativa como diferencial na forma como conduz o negócio hoje. Por outro lado, cita a perda do amparo de uma estrutura maior como o principal desafio da transição.

“Como empreendedor, a responsabilidade é 100% sua”, diz. Nos dois primeiros anos após deixar o emprego, afirma, não havia distinção entre dias úteis e fins de semana — um ritmo que hoje classifica como mais equilibrado.

Na época, o receio de perder relevância era constante: “Se eu não postar hoje, amanhã seremos esquecidos”, resume sobre a lógica que guiava a rotina de produção no início — um temor que, segundo ele, ainda aparece ocasionalmente, mesmo com o negócio mais estruturado.

Questionado se faria algo diferente na transição, Bagarolo diz que teria saído da CLT entre seis e sete meses antes do que saiu.

Além da produção de conteúdo, o casal retomou projetos de teatro. A peça “Por Toda a Minha Vida” ficou quatro meses em cartaz na primeira temporada e volta a ser encenada neste ano, agora com expectativa de gerar lucro.

Para o futuro, Bagarolo diz que o plano de longo prazo é o audiovisual: expandir o licenciamento de produtos da marca Mada e Bica e, como cineasta, abrir uma produtora para investir em projetos autorais e produções independentes.

Ao ser convidado a resumir a própria trajetória em uma palavra, Bagarolo escolhe “constante”. “A constância foi o que me permitiu construir e manter relevância ao longo do tempo”, diz.

Questionado sobre o que diria ao Leo Bagarolo que ainda trabalhava no emprego anterior, ele resume: “Eu diria para começar a criar e publicar vídeos na internet muito antes.”

Fonte: matéria publicada originalmente em pegn. Reproduzimos o conteúdo aqui, com crédito ao veículo de origem.

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