Após sete anos de pausa, a Endeavor Brasil realizou a 10ª edição do Day1 Endeavor na noite de segunda-feira (26/10), na Sala São Paulo, reunindo presencialmente mais de 1 mil pessoas e transmitindo o encontro ao vivo para todo o país. Sob o manifesto “O Extraordinário Começa Com Ambição”, o evento resgatou o conceito do Day1 (“dia um”): aquele ponto de inflexão e virada na trajetória do empreendedor em que uma crença é desafiada, um limite é superado e toda a história seguinte se transforma.
Maria Teresa Fornea, CEO da Endeavor Brasil, destacou a transformação do cenário nacional e o novo momento do ecossistema. “Quando a Endeavor começou o Day1 em 2011, o desafio era mostrar para o país que a carreira empreendedora era possível. Hoje, o Brasil já tem exemplos que provam isso. O que nos move agora é mostrar que é possível empreender com ambição e gerar escala e impacto em diferentes indústrias”, afirma.
A executiva também ressaltou a importância de democratizar o alcance dessas histórias para além do palco principal: “O Day1 começa no palco, mas não termina nele. Queremos que mais empreendedores possam acreditar que podem ambicionar mais, então estamos preparando um modelo itinerante para quem deseja organizar uma versão do Day1 na sua universidade, eventos ou hub local”.
A seguir, veja as principais lições das trajetórias apresentadas no Day1 Endeavor:
LiveMode
Sérgio Lopes e Edgar Diniz, fundadores e sócios da LiveMode, compartilharam os bastidores de sua trajetória no mercado de mídia e esportes. Eles relembraram momentos críticos, como o cancelamento da Copa do Nordeste — o que comprometeu 80% das receitas da empresa e os forçou a inventar o Esporte Interativo — e, anos mais tarde, a criação da LiveMode e da CazéTV.
A dupla enfatizou que a capacidade de inovação e a vanguarda do negócio sempre nasceram da necessidade e da resiliência em momentos de crise. “A gente aprendeu a amarrar elefante com barbante”, resume Lopes.
Os executivos atribuíram à CazéTV parte importante da expansão da LiveMode nos últimos anos. Criada em parceria com Casimiro Miguel, a iniciativa acumulou recordes de audiência simultânea em eventos como a Copa do Mundo de 2022 e os Jogos Olímpicos de Paris 2024. Sobre a inquietação constante e o futuro da empresa, Diniz apontaram: “Se a gente em 2030 tiver fazendo alguma coisa parecida com o que a gente tá fazendo hoje, ainda mais nesse mundo cheio de IA, alguma coisa vai ter dado muito errado”.
Por fim, definiram seu novo Day1: evoluir de operadores de direitos esportivos de terceiros para se tornarem proprietários e sócios de ligas, competições e eventos esportivos em escala global.
Insider
Carol Matsuse e Yuri Gricheno, fundadores da Insider, relataram como uniram as lições do tênis de alta performance e a disciplina acadêmica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da consultoria de gestão para construir a empresa, iniciada com R$ 50 mil investidos por cada um. A dupla combinou perfis complementares desde o primeiro produto, a undershirt (camiseta interna tecnológica projetada para ser usada como segunda pele por baixo de camisas sociais).
“O Yuri costuma ampliar o campo do possível e eu tenho obsessão por transformar essa possibilidade em realidade”, ressalta Matsuse.
Durante a pandemia de 2020, quando o uso de roupas sociais caiu drasticamente e o estoque de camisetas ficou parado, a empresa se reinventou ao aplicar íons de prata para criar tecidos e máscaras antivirais eficazes contra o coronavírus, multiplicando o faturamento em cinco vezes.
Ao abordar o momento em que decidiram encerrar o relacionamento afetivo de casal sem abrir mão da sociedade na Insider, a executiva refletiu sobre maturidade e gestão: “Talvez a coisa mais importante que a gente aprendeu nesse processo tenha sido separar três coisas que durante muito tempo pareciam ser uma só: quem eu sou, quem nós somos um pro outro e o que é a Insider. Mudar uma delas não precisava destruir as outras. Maturidade talvez não seja abandonar aquilo que te trouxe até aqui: é descobrir o que precisa ser preservado e o que precisa ser transformado”.
RD Saúde
Antônio Carlos Pipponzi, presidente do conselho da RD Saúde (RaiaDrogasil), resgatou os 120 anos de história da rede iniciada em 1905 por seu avô em Araraquara (SP) e continuada por seu pai. Engenheiro de formação, Pipponzi ingressou no negócio da família em 1977 e liderou nos anos 80 a implementação dos primeiros computadores e automação de lojas, reduzindo os estoques de 120 para 30 dias.
Na década de 1990, a empresa promoveu uma mudança cultural significativa ao abandonar o modelo comissionado tradicional de balconistas e investir na contratação e formação de jovens com foco em relacionamento com o cliente.
“O que a gente queria não era um modelo de transação, não é venda, não é comissionamento, é relacionamento. Aí nasceu uma cultura ou renasceu uma cultura de relacionar-se com os clientes. O relacionamento é um fluxo de vendas e não simplesmente uma venda”, destaca.
O executivo abordou também os momentos de crise, como o elevado endividamento decorrente da tentativa de quadruplicar o crescimento em 2008 e os complexos desafios de integração cultural enfrentados na fusão paritária entre Raia e Drogasil em 2011. Atualmente com quase 3,8 mil farmácias e 75 milhões de clientes cadastrados, Pipponzi defende o papel das farmácias como centros primários de promoção de saúde e bem-estar para desafogar o sistema de saúde do país.
Vtex
Mariano Gomide, cofundador e co-CEO da Vtex, relembrou os 26 anos da empresa global de soluções de comércio digital, fundada em parceria com Geraldo Thomaz. Ele destacou o momento dramático em 2004 quando a empresa estava prestes a encerrar as atividades e acabou salva por um telefonema em um restaurante do Aeroporto de Congonhas (SP) assinando o contrato da Swap Têxtil Corduroy.
“Naquele dia, aprendi que empreender, na prática, é trabalhar todos os dias com a convicção de que vai dar certo, mas também com a certeza de que, quando você precisar de sorte, ela estará ao seu lado”, enfatiza.
Em 2008, mesmo contando com apenas 12 funcionários e sem balanço auditado, a Vtex venceu concorrentes globais e conquistou o contrato de e-commerce do Walmart na América Latina. Anos depois, na noite anterior ao IPO na Bolsa de Nova York em 2021, os fundadores sustentaram a convicção do preço da ação em US$ 19 (R$ 101,46, na cotação atual) após uma votação por aclamação feita dentro de uma lanchonete Five Guys, recusando a pressão dos bancos para baixar o preço.
Gomide também compartilhou a origem do movimento Brazilian Engineering, criado após responder ao preconceito de um executivo internacional que questionou a compra de software brasileiro. Emocionado, finalizou citando a última conversa com sua mãe antes de seu falecimento em 2009:
“Ela não me pediu para ser rico, me pediu para ser feliz. E só me pediu uma coisa: faça a diferença. Essa é a maior lição de uma vida de empreendedor. Não há payback que equilibre tudo o que é necessário dar para colocar o Brasil no mundo”, diz.
Pismo
As irmãs Daniela e Juliana Binatti, cofundadoras da Pismo, contaram a história da fintech, criada na sala de jantar do apartamento de Daniela, após deixarem carreiras executivas consolidadas para desenvolver uma nova infraestrutura global de pagamentos e core banking em nuvem.
Daniela e Juliana ressaltaram que o principal pilar da sociedade de quatro fundadores foi a regra de alinhamento inegociável: “Naquele momento, a gente combinou que não existiria a opinião de um ou de outro. Sempre iríamos discutir e debater, mas nos apresentar para clientes e investidores com a posição dos founders. Nunca questionamos a decisão ou a opinião um do outro na frente de ninguém”.
Após anos em modelo bootstrapping, vendendo carros e recusando termos de investimento que não ofereciam acesso estratégico ao mercado, a Pismo atraiu aportes da Redpoint, SoftBank, Accel e Amazon. Em 2023, a empresa protagonizou uma das maiores transações de tecnologia da América Latina ao ser adquirida pela Visa por US$ 1 bilhão.
Ao analisar o marco da venda, Daniela destacou que o montante financeiro não resume o propósito da jornada. “A manchete diz um bilhão e a gente morre de orgulho dela, mas ela tá incompleta porque falta nela a nossa família, o nosso time e todo mundo que acreditou nesse sonho desde que a gente começou. A pergunta certa é: quem vai estar nas trincheiras do seu lado? Porque empreender é muito difícil e isso importa mais que a própria guerra”, afirma.